Antes de atingir o estado de lesões graves (gangrena, enfarte do miocárdio, hemorragia cerebral…), a degradação do sistema cardiovascular passa por várias etapas, caracterizadas por diferentes tipos de pequenos incómodos e lesões, sinais precursores dos transtornos graves. Estes sinais representam outras tantas advertências para que o doente modifique o seu modo de vida, de forma a salvar o seu sistema circulatório e, com ele, a própria vida.

  1. Alteração do sangue

É sempre a primeira etapa do início da degeneração do sistema circulatório. Recordemos que a composição do sangue está de acordo com os nossos hábitos de vida, isto é, dos alimentos, das bebidas, dos excitantes, das drogas e dos medicamentos que consumimos, do ar que respiramos, da nossa actividade física, dos nossos pensamentos, etc. Tudo quanto introduzimos no nosso corpo é também introduzido no nosso sangue.

Quando a forma de vida ultrapassa as capacidades orgânicas, os resíduos acumulam-se no sangue. Quanto mais se amontoam as toxinas, os refugos e os resíduos dos metabolismos, mais espesso e viscoso será o sangue, facto que, como é evidente, dificulta a circulação. Os riscos da diminuição da velocidade e do estancamento da corrente sanguínea aumentam e, com eles, o risco de coagulação do sangue, no interior dos próprios vasos (trombose).

  1. Formação de sedimentos nos vasos sanguíneos

 Como efeito de uma viscosidade sanguínea permanente, os resíduos aderem às paredes dos vasos. É o mesmo que acontece com um rio, quando arrasta, no seu caudal, muito lodo e detritos vegetais. Quanto mais numerosos forem os resíduos, mais lenta será a corrente e mais saturado de limos e detritos estará o leito do rio. No sistema circulatório do homem actual, os sedimentos são constituídos, principalmente, por matérias gordas (colesterol, por exempIo). Outros tipos de refugos (minerais residuais e resíduos nitrogenados … ) também aí se acumulam, quando tropeçam contra os sedimentos que lhes dificultam a passagem. Estas placas de resíduos que se formam contra as paredes dos vasos designam-se por ateromas. Inicialmente isolados, acabarão por se expandir e, logo, unir-se. Quanto mais aumentar o seu volume, mais se reduzirá o diâmetro dos vasos sanguíneos. Desta forma, o espaço disponível para a passagem do sangue diminuirá também.

Face à agressão que representa a formação de ateromas, os vasos defendem-se, calcificando as suas paredes ao nível destes sedimentos. Deste modo, tomam-se duros e rígidos (arteriosclerose). Os músculos localizados nas paredes vasculares perdem a elasticidade que lhes permitia contraírem-se, acabando por paralisar e atrofiar-se. Com o endurecimento das paredes vasculares e a perda de elasticidade, deixam de poder auxiliar a circulação.

  1. Deformação dos vasos sanguíneos

 Irritados pela acção dos resíduos arrastados pelo sangue, asfixiados pela diminuição da velocidade da corrente sanguínea e anémicos devido à falta de nutrientes, os vasos ficam consideravelmente debilitados. Aqueles cujo contributo é mais solicitado deixam de poder resistir normalmente à força da pressão sanguínea que sobre eles se exerce.

As suas paredes, lassas, dilatam-se de modo permanente formando vesículas, como se fossem caminhos laterais sem saída (varizes, hemorróidas, aneurismas, etc.). Estas deformações diminuem a velocidade da circulação do sangue, dificultando a irrigação dos tecidos.

  1. A obstrução progressiva dos vasos

Os ateromas poderão tornar-se tão importantes que causarão o tamponamento progressivo dos vasos. Os tecidos orgânicos que dependem destes vasos sentem-se cada vez mais privados de oxigénio e de substâncias nutritivas. A falta de oxigénio far-se-á sentir rapidamente: os músculos suboxigenados não conseguem contrair-se normalmente e, com isto, produzem-se cãibras e espasmos dolorosos. lnclusivamente, as cãibras poderão manifestar-se após um pequeno passeio, quando as necessidades de oxigénio aumentam devido ao esforço, podendo levar o doente a coxear (coxeadura intermitente).

Este fenómeno também pode produzir-se no músculo cardíaco. Ao espasmo do músculo cardíaco, devido a uma entrada de oxigénio insuficiente, associa-se uma sensação de angústia muito intensa, uma opressão torácica e dores fortes que se transmitem ao braço esquerdo, ao maxilar e às costas (angina de peito). O alívio obtém-se através do repouso, uma vez que, nestas condições, diminuem as necessidades de oxigénio, mas os transtornos reaparecerão a cada esforço.

Se não se efectuar uma reforma séria no sistema de vida, com o intuito de dificultar o desenvolvimento dos ateromas, alguns vasos acabarão por se obstruir completamente. O sangue deixará de circular, ocasionando a morte de toda a região de tecidos dependente desses vasos. Poderão, até, apodrecer ou, melhor, gangrenar (principalmente nos membros inferiores, pois o sangue precisa de vencer a força da gravidade para abandonar os pés e percorrer o caminho de volta ao coração).

A obstrução total de um vaso poderá também ocorrer bruscamente, em geral devido à formação de um coágulo (trombose) numa zona em que a vascularização esteja sensivelmente diminuída e na qual o sangue sobrecarregado se encontra parado. A presença do coágulo e dos ateromas contribui para interromper completamente a circulação no vaso que está afectado. Derivam daqui dores violentas, cãibras, inflamação das paredes vasculares e fortes 108 riscos de infecção. Se a obstrução ocorrer numa veia, trata-se de uma flebite; se for numa artéria, será uma arterite.

  1. Esgotamento do coração

Para manter uma circulação normal nesta rede de canais obstruídos por sedimentos e que transportam um sangue denso, o coração terá que aumentar a potência das suas contracções. Deste modo, o sangue que é expelido com maior força poderá vencer com mais facilidade os obstáculos que para ele representa a passagem dos ateromas e dos órgãos congestionados pelos resíduos, como o fígado e os rins.

Esta hipertensão compensadora, ainda que consiga manter uma vascularização suficiente dos tecidos, não deixa, contudo, de ser uma situação anormal, tanto para os vasos como para o coração, os quais poderão ceder sob o peso do trabalho.  Nos vasos sanguíneos, esta situação manifestar-se-ia pela ruptura de uma parede vascular, produzindo uma hemorragia (hematoma, púrpura, hemorragia nasal, hemoptise … ). No coração, as válvulas que comandam a entrada e a saída do sangue separam-se (cardiopatias diversas).

O sangue, não podendo ser propulsionado correctamente, em vez de avançar continuamente, retrocede. A onda sanguínea já não possui a força nem o impulso suficientes (insuficiência cardíaca), amolecendo perante os obstáculos. A irrigação dos tecidos toma-se cada vez mais deficiente, porque a “bomba” já não funciona correctamente.


Retirado do livro: Compreender as Doenças Graves de Christopher Vasey 

Postado por: Ângela Barnabé