Rosa-canina (Rosa Canina L.) – Um concentrado vitamínico… completamente natural

Que virtude poderemos supor que se encontrem nesta planta, de acordo com a comprovada teoria dos sinais?- interroga o professor.

Encontramo-nos numa aula da Universidade de Bolonha, pelos finais do ano 1545. O insigne médico e botânico espanhol Andrés de Laguna acaba de obter o grau de doutor nessa famosa universidade italiana, e dirige-se agora, segurando um ramo de rosa-canina, a um grupo de estudantes.

– Vejo nos espinhos dos caules os dentes afiados de um cão -diz. um dos estudantes-. Creio que esta planta deve ser boa contra a raiva.

– Efectivamente! -diz o professor.- Assim o confirma o mestre Dioscórides.

Outro dos estudantes abre um dos frutos da rosa-canina e, depois de observar os finos pêlos que abundam no seu interior, diz:

– Eu creio que deve ser boa contra a calvície. Reparem na quantidade de cabelos finos que há dentro destes frutos!

– E porque não poderá ser boa para curar o mal da pedra? Já repararam nas sementes, pequenas e duras, que parecem cálculos urinários? – diz outro estudante.

O doutor Laguna sente-se satisfeito com os seus alunos de Bolonha. Acabam de redescobrir as três propriedades que se atribuem à rosa-canina desde o tempo de Dioscórides, no século I d.C.

Lamentavelmente, a teoria dos sinais não era mais do que isso: uma teoria. Os progressos da química e da farmacologia permitiram, nos séculos XIX e XX, descobrir as verdadeiras propriedades das plantas. E curiosamente, nenhuma dessas três propriedades que, segundo a dita teoria, se atribuíam a esta planta, pôde ser confirmada. Em troca, a investigação científica conseguiu pôr a descoberto outras propriedades da rosa-canina, as verdadeiras, não menos interessantes que as supostas.

A superfície interna dos frutos da rosa-canina acha-se coberta por uns pelinhos vermelhos e rígidos, muito irritantes. Eis a maneira pitoresca como Font Quer os descreve: “Produzem uma endiabrada comichão quando se introduzem entre a camisa e a pele. A mesma, segundo se conta, que se sente em volta do orifício anal quando, depois de se comer os frutos da rosa-canina, os próprios pelinhos, após terem escapado incólumes a todos os perigos das vias digestivas, se despedem assim do seu hospedeiro.”


Propriedades e Indicações:

Os frutos da rosa-canina contêm diversos açúcares e ácidos orgânicos, assim como pectina, sais minerais, carotenos (provitamina A), e vitaminas B1, B2, C, E e P (flavonóides). O conteúdo em vitamina C atinge os 600 mg por 100 g, e pode chegar até aos 800 mg, sendo inclusive muito superior ao do limão, que é de cerca de 50 mg. Assim a rosa-canina torna-se um dos vegetais mais ricos nesta vitamina, acima do kiwi (300 mg), da luzerna (183 mg) e da groselheira-negra, Ribes nigrum L. (170 mg). A rosa-canina só é ultrapassada em vitamina C pela excepcional malpíguia ( Malpighia punicifolia L., Malpighia glabra L.) fruta que, madura, contém até 2500 mg de vitamina C por cada 100 g, e verde pode chegar até aos 6000 mg.

As propriedades dos frutos da rosa-canina são as seguintes:

Tonificantes e antiescorbúticos: Úteis em caso de esgotamento físico, astenia, fadiga primaveril e convalescenças (1,2,). Os frutos da rosa-canina são um autêntico concentrado de vitaminas naturais, especialmente da C. Ainda que o escorbuto (falta de vitamina C) seja uma doença rara nos países desenvolvidos, um suplemento importante desta vitamina tem um efeito tonificante.

Imunoestimulantes: Os frutos da rosa-canina usam-se como estimulantes das defesas, especialmente para prevenir gripes e constipações. Muito recomendáveis em todas as doenças infecciosas, especialmente nas infantis (1,2).

Diuréticos e depurativos: Recomendam-se na hidropisia (retenção de líquidos); alimentação sobrecarregada, rica em carnes e produtos de origem animal; gota e artritismo; e sempre que seja precisa a acção de um diurético suave com propriedades depurativas (1,2).

Os frutos da rosa-canina já se utilizaram engolidos inteiros, mesmo com os pêlos, contra a ténia e demais parasitas intestinais, embora sem fundamento científico. Alguns atribuíam a sua pretensa eficácia ao facto de os vermes não suportarem a acção dos terríveis pelinhos.

As pétalas das flores contêm pectina, tanino, ácidos orgânicos e pequenas quantidades de essência.

Como todas as pétalas das rosas, servem para preparar a água de rosas, com a qual se obtêm muito bons resultados ao lavar os olhos afectados por conjuntivite ou blefarite (inflamação das pálpebras) (4).

As folhas e a raiz contêm ácido tânico e são adstringentes. Empregam-se em diarreias simples e gastrenterites (3).

As duras sementes da rosa-canina, não só carecem de efeitos sobre os cálculos urinários segundo se pensava, como ainda, trituradas, libertam uma essência tóxica para o sistema nervoso.


Preparação e emprego

Uso interno

1-Frutos frescos: É a melhor maneira de aproveitar toda a sua riqueza vitamínica. Escolher os que estejam bem maduros, abri-los e limpá-los bem debaixo da torneira, até lhes tirar todos os pelinhos e sementes. Comer um bom punhado deles cada dia.

2-Decocção de frutos: 50-60 g de frutos por litro de água. Tomar 4 ou 5 chávenas por dia. A vitamina C perde-se, mas persistem as suas propriedades diuréticas, depurativas e ligeiramente adstringentes.

3-Decocção de raiz e folhas: 100 g de raiz e/ou folhas de rosa-canina em litro e meio de água. Ferver até que se reduza a um litro. Tomar várias chávenas por dia, como antidiarreico.

 

Uso externo

4-Água-de-rosas: Põe-se a macerar um punhado de pétalas de flor de rosa-canina num copo de água. Passado um dia, espremer as pétalas e deitá-las fora. Lavar os olhos com o líquido que ficou.


Outros nomes: rosa-de-cão, silva-macha, silvão. Brasil : rosa-bandalha. Esp.: escaramujo, rosa canina,  rosal silvestre, rosal perruno, uña de gato, cinorrodón. Fr.: rosier des chiens, rosier sauvage, églantier. Ing.: brier hip, wild brier, eglantine gall.

Habitat: Muito comum nas bermas dos caminhos e bosques de toda a Europa. Naturalizada na América.

Descrição: Arbusto de 1 a 3 m de altura, da família das Rosáceas, com caules providos de espinhos. As folhas são alternas, com 5 ou 7 folíolos ovais e de bordo dentado. As flores têm 5 pétalas cor-de-rosa ou esbranquiçadas. Aquilo a que vulgarmente se chama fruto, de cor vermelha e com forma de azeitona, é na realidade um pseudofruto, formado pelos restos do cálice da flor.

Partes utilizadas: os frutos, as flores, as folhas e a raiz.


Fonte: A Saúde pelas Plantas Medicinais, Vol.2, de Jorge D. Pamplona Roger

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