Oliveira (Olea europaea L.) – Alimento antigo e medicamento de actualidade

Que lhe apetece comer? –pergunta o médico a um doente enfraquecido, que se recupera num hospital de uma complicada intervenção.

-Talvez… uma fatiazinha de pão com azeite -sugere timidamente o debilitado paciente. E insiste:

-Poderei comer pão com azeite…?

O doente, um camponês da Europa Meridional, de pele tisnada pelo sol, não esquece, nem mesmo prostrado na cama do hospital, o delicioso sabor do pão caseiro com azeite de oliveira.

A oliveira faz parte essencial da cultura mediterrânica. Desde que a pomba enviada por Noé, para comprovar a descida das águas do Dilúvio, regressou com um raminho de oliveira no bico, esta árvore transformou-se no símbolo da paz. Entre os Judeus, o azeite era usado para ungir as pessoas que deviam consagrar-se a uma missão especial. E na época cristã converteu-se no símbolo do Espírito Santo.

Os Fenícios e os Romanos disseminaram-na por toda a bacia mediterrânea. O azeite continua a ser a gordura comestível mais importante na dieta popular do Sul da Europa, companheiro indispensável do pão, das saladas e de tantos pratos saborosos.

Segundo o investigador espanhol Grande Covián, o consumo de azeite, em vez de manteiga, explica o facto de a frequência de infarto do miocárdio e trombose ser significativamente menor nos países mediterrâneos do que nos do Centro e Norte da Europa e na América do Norte.

O principal país produtor de azeite em todo o mundo é a Espanha, com os seus 180 milhões de oliveiras espalhadas desde a Andaluzia até à Catalunha. Deve-se distinguir entre:

Azeite de oliveira virgem: Obtido da azeitona por trituração, pressão a frio ou decantação, e posteriormente filtrado; ou então por centrifugação. Não sofre nenhum tratamento com substâncias químicas.

Azeite puro de oliveira: Mistura de azeite virgem e de azeite refinado, que foi submetido a processos fisicoquímicos para lhe reduzir o grau de acidez.

O azeite virgem é mais natural e de sabor mais forte, enquanto que o chamado “puro” ou o refinado tem um sabor mais neutro.

Ambos, mas especialmente o virgem, são superiores aos óleos de sementes (girassol, milho, etc.) quanto ao valor nutritivo, propriedades medicinais e estabilidade ao fritar.


Propriedades e Indicações:

As folhas da oliveira contêm oleuropeína (até 1%), um glicósido; além de tanino, açúcares e outras substâncias.

São febrífugas (baixam a febre) e hipotensoras, sendo um dos remédios vegetais mais eficazes contra a hipertensão (1). O seu uso torna-se também muito recomendável no caso de arteriosclerose.

As azeitonas contêm lípidos (gorduras) e prótidos, além de sais minerais (especialmente cálcio), enzimas e vitaminas A1, B1, B2 e PP. São aperitivas, tónicas da digestão e ligeiramente laxantes (2).

O azeite ou óleo da azeitona é constituído por uma mistura de diversos lípidos, formados quimicamente pela união da glicerina com os chamados ácidos gordos, dos quais o oleico (até 80%) é o mais importante, seguido do linoleico, do palmítico e do esteárico, entre outros. Tem as seguintes propriedades:

Emoliente, ou seja, que exerce um efeito suavizante e anti-inflamatório sobre a pele e as mucosas. Cura queimaduras, feridas, úlceras e irritações da pele. Faz parte de numerosos unguentos e pomadas (4). Em uso interno, tem uma acção anti-inflamatória e  protectora sobre a mucosa do estômago, pelo que é um excelente remédio em caso de gastrite aguda (irritação do estômago) (3), produzida muitas vezes por medicamentos como a aspirina, bebidas alcoólicas, café, especiarias ou conservas em vinagre.

Laxante suave (3), quer seja tomado em jejum quer aplicado em enema (clister) (5). Além disso, facilita a expulsão dos vermes intestinais.

Colagogo, isto é, que facilita o esvaziamento da vesícula biliar, o que ajuda o alívio das doenças abdominais devidas ao mau funcionamento da vesícula (3). Além disso, a bílis despejada no intestino facilita a digestão. No entanto, deve-se usar com prudência em caso de colelitíase (cálculos ou pedras na vesícula) , pois poderia desencadear uma cólica biliar.

Efeito sobre o colesterol (3): O azeite não oferece um acentuado efeito redutor do nível de colesterol no sangue, como o que possuem os óleos de gérmen de trigo ou de milho, por exemplo. No entanto, usado de forma continuada, tem a faculdade de manter o colesterol sanguíneo em níveis baixos. Comprovou-se experimentalmente que o azeite aumenta as lipoproteínas da alta densidade (HDL, High Density Lipoprotein em inglês), que são encarregadas de transportar no sangue um tipo de colesterol chamado colesterol HDL. Este tipo especial de colesterol tem a propriedade de evitar a arteriosclerose (endureci- mento das artérias por depósito de colesterol e cálcio nas suas paredes), ao contrário do colesterol ligado às lipoproteínas de baixa densidade (LDL, Low Density Lipoprotein) ou colesterol nocivo. Isto pode explicar o facto de o consumo habitual de azeite como gordura alimentar estar directamente relacionado com um menor risco de infarto do miocárdio.

Antitóxico, excepto nas intoxicações provocadas pelo fósforo ou seus derivados (3). Dá-se a beber à vítima um copo de azeite misturado com água quente, para provocar o vómito, e, depois de ter vomitado, dão-se-lhe a beber novamente várias colheradas de azeite, para que desenvolva a sua acção de antídoto no tubo digestivo.


O azeite e a pele

Antigamente, quando não existia a grande variedade de produtos de beleza de que dispomos actualmente, o azeite era um dos cosméticos mais apreciados. Entre o antigo povo de Israel, como noutras culturas da área mediterrânea, era costume ungir a cabeça com azeite para embelezar a pele e o cabelo.

Todos os óleos, mas especialmente o da azeitona, têm acção emoliente (suavizante) e protectora sobre a pele que os absorve. Uma boa forma de aplicar o azeite sobre a pele é a seguinte:

  1. Aplicar uma loção com azeite, acompanhada de uma suave massagem sobre todo o corpo.
  2. Vestir uma bata ou um roupão e esperar durante 15-20 minutos.
  3. Passado este tempo, toma-se um duche quente, ensaboando a pele com o produto habitualmente utilizado. Depois de enxugar, nota-se como a pele ficou mais suave e limpa.

Preparação e Emprego

Uso interno

1-Decocção: Prepara-se com 40-50 g de folhas por litro de água. Fazem-se ferver até que a água fique reduzida a metade. Ingerem-se três chávenas por dia.

2-As azeitonas comem-se como aperitivo, na salada, ou durante a refeição.

3-O azeite, quando se toma com fins medicinais, ingere-se em jejum ou antes das refeições, na quantidade de uma ou duas colheres de sopa. Convém que seja virgem e, se possível, extraído por pressão a frio ou decantação.

 

Uso externo

4-O azeite também se aplica em forma de loção ou pomada (unguento).

5- Enemas (clisteres): Bate-se com água quente em partes iguais. Pode-se acrescentar outra parte de decocção de malva ou malvaísco.


Outros nomes: azeitoneira, zambujeiro (a variedade silvestre). Esp.: olivo, aceituno, olivera, azambujo. Fr.: olivier. Ing.: olive [tree].

Habitat: Oriunda do Próximo Oriente, cresce tanto cultivada como silvestre, por todos os países mediterrâneos. Foi introduzida no continente americano no século XVI.

Descrição: Árvore de porte médio, da família das Oleáceas. Tem tronco grosso e retorcido, folhas elípticas de bordo liso e cor verde acinzentada. As flores são pequenas, esbranquiçadas. O seu fruto é uma drupa: a conhecida azeitona, ou oliva. A oliveira silvestre (o zambujeiro) é mais pequena e tem as folhas arredondadas; os frutos negros são mais pequenos do que os da cultivada, mas contêm as mesmas substâncias.

Partes utilizadas: as folhas e os frutos.


Fonte: A Saúde pelas Plantas Medicinais, Vol.1, de Jorge D. Pamplona Roger

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