Cardo-de-santa-maria (Silybum marianum (L.) Gaertn.) – Regenera as células hepáticas

Os espinhos dos cardos são as defesas que protegem um grande tesouro medicinal.

Muitos, no entanto, permitem-se desprezar estas plantas, achando que são toscas e grosseiras, apropriadas unicamente para comida de burricos. É por isso que, em grande parte da Espanha, lhe chamam “cardo borriquero”, enquanto na Argentina e no Uruguai é conhecido por “cardo asnal”.

Já teve o leitor ocasião de ver um burro a correr um cardo? Os “inteligentes” seres humanos precisaram de muitos séculos para descobrir aquilo que estes humildes quadrúpedes conhecem. É possível que muitos se admirem quando souberem que, deste cardo que os burros comem, se extrai a silimarina, potente medicamento contra as doenças do fígado, que faz parte de vários preparados farmacêuticos.

Diz uma lenda que as manchas brancas que adornam as folhas deste cardo são gotas de leite que caíram do seio da Virgem Maria, quando fugia com o seu Filho da perseguição de Herodes. Baseando-se nisto, a medicina medieval recomendava o cardo-de-santa-maria às parturientes e amas de leite, para aumentar a secreção do leite.

O processo da ciência nos últimos séculos, que foi dando a conhecer a composição química das plantas, permitiu abandonar muitas das superstições populares a respeito das propriedades das plantas medicinais. Graças a isso, podemos hoje usá-las com conhecimento de causa e maior eficácia curativa.


Propriedades e Indicações:

Nos frutos do cardo-de-santa-maria, ou cardo-leiteiro, encontram-se as substâncias responsáveis pelos seus efeitos medicinais. São os chamados flavonolignanos.

A doutora Coll (do Laboratório de Farmacognosia e Farmacodinamia da Faculdade de Farmácia de Barcelona) indica que estes compostos resultam da união de um flavonóide (a taxifolina) com uma molécula de tipo fenilpropanóide (o álcool coniferílico). A mistura dos diversos tipos (isómeros) de flavonolignanos recebe o nome de silimarina.

A silimarina é capaz de estimular a regeneração das células hepáticas danificadas por tóxicos corno o álcool etílico ou o tetracloreto de carbono, assim como pela faloidina, substância contida no amanita falóides (Amanita phalloides [Fr.] Link.), o mais tóxico de todos os cogumelos. A silimarina estimula a síntese de proteínas nas céIulas hepáticas, e tem além disso uma importante acção anti-inflamatória sobre o mesênquima (tecido fibroso de suporte) do fígado.

Por tudo isto, o cardo-de-santa-maria é especialmente indicado nos seguintes casos:

Degenerescência gorda do fígado, quer seja causada pelo álcool quer por outros tóxicos (1,3).

Inflamação do fígado causada por fármacos, como, por exemplo, anti-inflamatórios, tuberculostáticos, anovulatórios ou psicofármacos (1,3).

Intoxicações por substâncias hepatotóxicas, como o tetacloreto de carbono, os insecticidas organofosforados e os cogumelos do género Amanita (A. phalloides, A. verna, A. virosa) (1,3).

Hepatite vírica aguda, hepatite crónica, hepatite alcoólica (inflamação do fígado causada pelo consumo de bebidas alcoólicas) (1,3).

Insuficiência e congestão hepáticas, com ou sem icterícia (1,3).

Cirrose hepática (1,3).

Em todos estes casos, a silimarina contida nos frutos do cardo-de-santa-maria estimula a regeneração das células hepáticas danificadas e restabelece o seu funcionamento normal.

Convém que se saiba que, nem esta planta, nem qualquer outro tratamento, até à data, são capazes de curar completamente a cirrose em que já se tenha produzido a necrose (morte ou destruição) de células do fígado. No entanto, mesmo nos casos mais graves, sempre se poderá esperar algumas melhoras.

Os frutos do cardo-de-santa-maria e, em menor proporção, as folhas e as raízes, contêm também outras substâncias activas (aminas biogénicas, óleo essencial, albuminóides e tanino), as quais poderiam explicar a sua ação reguladora sobre o sistema nervoso vegetativo, que é o que controla a tonicidade dos vasos sanguíneos.

Por isso, se utiliza com êxito nos casos de:

Enxaquecas e nevralgias (2).

Esgotamento e astenia (fadiga) (2).

Cinetose (enjoos e vómitos nas viagens): tomar uma chávena de tisana antes de sair (2).

Reacções alérgicas: febre dos fenos, urticária, asma (2).


Preparação e Emprego

Uso interno

1-Salada: As folhas tenras sem espinhos, assim como o interior das alcachofras do cardo-de-santa-maria, podem comer-se em salada crua, tal como o fazem os beduínos do Sara, para quem constituem um delicado manjar.

2-lnfusão ou decocção com 30-50 g de frutos esmagados ou triturados, a que podem acrescentar-se folhas ou raízes. Tomam-se de 3 a 5 chávenas por dia. Esta dose pode ultrapassar-se sem nenhum perigo, já que a planta não apresenta nenhum tipo de efeito tóxico.

3-Extracto seco: 0,5-1 g, três vezes por dia.


Sinonímia científica: Carduus marianus L.

Outros nomes: cardo-mariano, cardo-leiteiro. Esp.: Cardo mariano, cardo de Maria, cardo borriquero, cardo lechero, cardo blanco. Fr.: chardon Marie. Ing.: [milk] thistle, Saint Mary’s thistle.

Habitat: Espécie tipicamente  mediterrânea, mas que se aclimatou na Grã-Bretanha e na América do Norte. Cresce espontaneamente em terrenos secos e pedregosos.

Descrição: Planta vigorosa, de aspecto espinhoso, que atinge até dois metros de altura. Pertence à família das Compostas. As suas folhas, grandes e espinhosas, chamam a atenção pelas manchas brancas que se estendem ao longo das nervuras. Os capítulos florais são cor-de-rosa ou púrpura. Os frutos são duros, de 6-7 mm e de cor escura.

Partes utilizadas: os frutos (sementes), as folhas e a raiz.


Fonte: A Saúde pelas Plantas Medicinais, Vol.1, de Jorge D. Pamplona Roger

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