Aloés (Aloe Vera L. Webb) – Suaviza a pele, cicatriza as feridas, e tonifica

Seria bom que pudesses conquistar a ilha de Socotra, lá no oceano Indico – diz Aristóteles ao seu discípulo, o grande imperador e conquistador Alexandre, o Grande.

– Ali abundam as palmeiras tamareiras, o incenso e, sobretudo, o aloés, que nessa afortunada ilha cresce por toda a parte.

– Aprecio as tâmaras e o incenso; mas diz-me, mestre Aristóteles: para que queres as plantas do aloés?

– Majestade, nós, os botânicos, médicos e sábios desta nobre cidade de Atenas, chegámos à conclusão de que não existe melhor cicatrizante do que o gel de aloés. Os soldados dos nossos exércitos, que caiam feridos em combate, encontrarão no aloés o melhor dos seus remédios.

– Isso interessa-me muito, Aristóteles. Quero que os meus soldados disponham dos melhores tratamentos. Mas, diz-me: como tendes chegado à conclusão de que o aloés é tão bom cicatrizante?

– Pois é muito simples, Majestade. Observámos que, quando se corta uma das suculentas folhas do aloés, se produz uma rápida cicatrização da sua própria superfície, cuja finalidade é evitar que se perca o precioso suco que contêm. A lógica natural diz-nos que, se a planta é capaz de regenerar eficazmente a superfície danificada das suas próprias folhas, também actuará cicatrizando as feridas dos seres humanos que estejam em contacto com elas.

Sabemos hoje que o aloés pertence ao grupo das plantas xerófilas, caracterizadas por fecharem os estomas das suas folhas logo que se produza qualquer corte ou ferida nelas. Deste modo evitam a perda de água. É verdade que o aloés foi aplicado para sarar as feridas de muitos ao longo da história. Soldados gregos, gladiadores romanos e guerreiros de diversos impérios foram tratados com aloés. Houve também um soldado muito especial, que cerca de quatro séculos depois de Aristóteles e de Alexandre, o Grande, morreu em pleno campo de batalha. Como se fez com outros, também a ele se aplicou aloés sobre o seu corpo ferido e magoado, ainda que já depois de morto. Referimo-nos a Jesus Cristo, o libertador e salvador da humanidade, um lutador infatigável contra o mal, de quem se disse que «pelas suas feridas fomos sarados” (I S. Pedro 2:24). O corpo de Jesus foi tratado com aloés e mirra, segundo relata o capítulo 19 do Evangelho segundo S. João. Três dias depois, ressuscitou vitorioso da morte.

Propriedades e Indicações:

Das suculentas folhas do aloés obtêm-se dois produtos principais: o azebre (espanhol: acíbar) e o gel de aloés.

O azebre: Incisando a superfície das folhas das diversas espécies de aloés, obtém-se um suco viscoso de cor amarela e sabor amargo, que se concentra ao calor do sol, ou por ebulição. Transforma-se assim numa massa amorfa de cor escura e sabor muito amargo, que é o azebre. O azebre contém de 40% a 80% de resina, e até 20% de aloína, glicósico antraquinónico que é o seu princípio activo.

Segundo a dose diária com que se empregue, o azebre tem diferentes aplicações

-até 0,1 g é aperitivo, estomacal e colagogo, facilitando a digestão;

– a partir de 0,1 g actua como laxante e como emenagogo (aumenta o fluxo menstrual);

– doses de 0,5 g (máximo diário), actua como purgante enérgico e também ocitócico (provoca contracções uterinas).

O gel ou sumo de aloés: Obtém-se da polpa das suas folhas carnudas, que deitam um sumo pegajoso, quase transparente e de sabor insípido. A ele se deve afama que o gel de aloés tem adquirido nos últimos anos, especialmente pela sua acção curativa sobre a pele. É formado por uma mistura complexa de mais de 20 substâncias, como polissacáridos, glicósidos, enzimas e minerais. Contém acemanan, uma substância imunoestimulante (que aumenta as defesas). Ao contrário do azebre, o gel de aloés não tem propriedades laxantes.

Aplicado localmente, são muitas as afecções sobre as quais o aloés pode exercer efeitos benéficos. As mais importantes são as seguintes:

Feridas, quer sejam limpas quer infectadas. O sumo de aloés aplica-se em compressas (3), embora também se possa colocar directamente a polpa da folha sobre a ferida. Facilita a limpeza da ferida e acelera a sua cicatrização, reduzindo, além disso, a cicatriz.

Queimaduras: O gel ou sumo de aloés aplica-se em compressas durante os dias seguintes à queimadura (3). Em queimaduras de primeiro grau, bastam dois ou três dias de aplicação. Em casos mais graves, convém consultar o especialista. O aloés consegue acelerar a regeneração da pele danificada e reduzir ao mínimo a cicatriz. Têm-se obtido bons resultados nas queimaduras cutâneas causadas por radiações ionizantes, assim como na radiodermite (afecção da pele causada pelas radiações). Diz-se que, na Segunda Guerra Mundial, alguns habitantes de Hiroshima e Nagasaki que sobreviveram às explosões atómicas curaram as queimaduras produzidas pela radiação, aplicando a si mesmos polpa de folhas de aloés directamente sobre as zonas queimadas.

Afecções da pele: O sumo de aloés aplicado em loção tem uma acção favorável em casos de psoríase e eczemas da pele, assim como na acne, pé de atleta (infecção por fungos) e herpes, entre outras (4). Para reforçar o efeito, recomenda-se tomá-lo também por via oral (2). Nas crianças, a loção de sumo de aloés emprega-se no tratamento do eczema causado pelas fraldas, e para aliviar a comichão e facilitar a cicatrização da pele nas doenças exantemáticas como o sarampo, a rubéola e a varicela (4,5).

Beleza da pele: O aloés revitaliza a pele, conferindo-lhe uma maior pureza, resistência e beleza. Aplicado sobre a pele, melhora o aspecto das cicatrizes inestéticas e das estrias. Também se emprega no cuidado do cabelo e das unhas (4,5).

Ingerido por via oral, o sumo de aloés é depurativo e tonificante. Emprega-se como digestivo e também no tratamento da úlcera gastroduodenal (2). Verificou-se experimentalmente que o acemanan contido no sumo de aloés tem a faculdade de estimular as defesas do organismo (2). O seu uso por via interna activa os linfócitos, células que, entre outras funções, têm a de destruir as células cancerosas, assim como aquelas que tenham sido infectadas pelo vírus da sida. Por isso está a ser investigado o seu emprego nestas duas pragas do nosso tempo, sem que, até ao momento, se tenham podido obter resultados concludentes.

 

Precauções

O gel ou sumo de aloés pode provocar reacções alérgicas quando se aplica sobre a pele. Uma de cada 200 pessoas, aproximadamente, é alérgica ao aloés. Se, poucos minutos depois de espalhar umas gotas de sumo de aloés sobre a pele das costas, aparecer um ligeiro rubor e comichão, é sinal de alergia ao aloés: ter-se-á de recorrer a outro remédio. O azebre não deve ser utilizado como purgante pelas mulheres durante a menstruação, nem pelas grávidas, pois provoca congestão dos órgãos pélvicos e contracções uterinas. Também não é recomendável para quem sofra de hemorróidas (pode fazê-las sangrar). Não se deve administrar às crianças. Não exceder a dose de 0,5 g por dia.

 

Preparação e emprego

Uso interno

1- Azebre: Utiliza-se em forma de cápsulas preparadas farmaceuticamente. Como laxante ou purgante, o azebre de aloés actua lentamente, pelo que se administra à noite para obter o efeito no dia seguinte.

2-Gel ou sumo de aloés: Tomam-se 1 ou 2 colheradas, 3 ou 4 vezes ao dia, dissolvidas em água, sumo de frutas ou leite. Normalmente, toma-se com as refeições. Em caso de úlcera gastroduodenal, recomenda-se tomá-lo meia hora antes de cada refeição, e antes de se deitar para dormir.

Uso externo

3- Compressas com sumo de aloés: Devem-se manter durante todo o dia, humedecendo-as com sumo cada vez que sequem. À noite, pode-se aplicar um creme hidratante ou simplesmente azeite, pois o sumo de aloés resseca a pele.

4-Loção com sumo de aloés: Aplica-se 2 ou 3 vezes por dia sobre a pele afectada. Convém combinar o seu uso com o de algum emoliente (suavizante), como por exemplo o azeite.

6- Cremes, unguentos e outros preparados farmacêuticos à base de aloés. Normalmente incluem uma substância emoliente ou hidratante.

Sinonímia científica: Aloe barbadensis Miller

Espécies afins: Existem mais de 200 espécies de aloés. Juntamente com o Aloe vera, o mais utilizado é o Aloe ferox Miller. Outros nomes: erva-babosa, azebre. Esp.: aloe, savila, zábila, pita zábila. Fr.: aloés. Ing.: aloe.

Habitat: Originário do Sul de África, mas expandido petas regiões quentes e desérticas da América (Antilhas e América Central) e Asia. Em Portugal foram introduzidas cerca de 50 espécies, algumas das quais bem representadas nos arredores de Lisboa, principalmente na margem direita do Tejo. Descrição: Planta da família das Liliáceas, que pode chegar a atingir três ou quatro metros de altura, pelo crescimento do seu eixo ou tronco central. As folhas são carnudas, de forma lanceolada, e com os bordos espinhosos. As flores, de cor amarela ou vermelha, segundo a variedade, pendem todas de um longo caule.

Fonte: A Saúde pelas Plantas Medicinais, Vol.1, de Jorge D. Pamplona Roger

Composto e postado por Ângela Barnabé

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