Alho ( Allium sativum L.) – Cura e previne com eficácia uma multidão de males

Este livro encontrará todas as maravilhosas virtudes do alho e a maneira de comê-lo para evitar o seu cheiro – dizia certo vendedor ao seu cliente, com bastante entusiasmo.

Este, sentindo na cara uma baforada de hálito com forte cheiro a alho, fez-lhe a seguinte pergunta:

-E você, pratica os conselhos do seu livro?

-Claro que sim! Depois de comer os alhos, como uma maçã e mastigo umas folhinhas de salsa… – respondeu imediatamente o vendedor, muito convencido da eficácia do seu método.

O certo é que quem tiver comido alho não o pode ocultar. Todas as secreções do corpo o denunciam. Além do hálito, cheiram a alho os arrotos, as ventosidades, o suor, a urina, e até o leite das mães que amamentam. Alguns resolvem comê-lo à noite, para sofrerem sozinhos o incómodo mau cheiro. Outros confiam na maçã e na salsa. E há ainda quem aceite a sua fetidez, como aquele galhardo capitão de cavalaria francês que, como relata Mességué, apesar de empestar de alho todo o ambiente num raio de dez metros, tinha conseguido uma reputação inigualável entre as damas da sua região…

Não é por acaso que o alho é originário da Ásia Central, região em que se encontram os homens mais longevos do planeta, e onde a incidência do cancro é a mais baixa de todas as que se conhecem. Os antigos Egípcios incluíam o alho na dieta dos robustos escravos construtores de pirâmides, como atestam as inscrições encontradas nas proximidades das pirâmides de Gizé.

Os Gregos consideravam-no uma fonte de força física e obrigavam os atletas a comer um dente de alho cru antes de cada competição nos Jogos Olímpicos, talvez para que assim corressem com mais fúria. Dioscórides e Caleno consideravam-no uma panaceia. Contudo, nos templos das divindades gregas, proibia-se a entrada aos fiéis que cheirassem a alho.

Na Idade Média, os médicos utilizavam uma máscara impregnada de alho para assistir aos doentes, especialmente os que tinham peste. Mais tarde, a fama do alho chegou ao continente americano, sendo muito apreciado no México, no Peru e nos restantes territórios da Nova Espanha. Jerónimo Pompa assim o confirma na sua obra, Colección de medicamentos indígenas, escrita em meados do século passado.

Muitas são as propriedades que se têm atribuído ao alho ao longo da história. E a maior parte delas foram confirmadas por investigações científicas recentes. É provável que o alho seja o remédio vegetal com maior número de propriedades demonstradas experimentalmente.


Propriedades e Indicações:

Toda a planta, mas especialmente o bolbo, contém aliina (glicósido sulfurado), uma enzima (aliinase), vitaminas A, B1, B2, C e niacina (vitamina do complexo B). A aliina é inodora, mas pela acção da aliinase, que actua quando o alho é esmagado, converte-se primeiro em aliicina, e depois em bissulfureto de alilo (a genina do glicósido), que são os princípios activos mais importantes, que comunicam o típico cheiro a alho.

A aliina e o bissulfureto de alilo são substâncias altamente voláteis, que se dissolvem com grande facilidade nos líquidos e nos gases. Transportadas pelo sangue, impregnam todos os órgãos e tecidos do organismo. Desta forma actuam por todo o corpo, ainda que com maior intensidade sobre os órgãos através dos quais se eliminam: os pulmões e brônquios, os rins e a pele.

Podemos sintetizar as múltiplas propriedades do alho, desta forma:

-Hipotensor (1,2,3,4): Em doses elevadas, o alho provoca uma descida da tensão arterial, tanto da máxima como da mínima. Tem um efeito vasodilatador, pelo que é útil aos hipertensos, aos arterioscleróticos e aos que sofram do coração (angina de peito ou infarto). O alho é um grande amigo do sistema circulatório.

-Fluidificante do sangue (1,2,3,4): O alho actua como anti-agregante plaquetário (impede a tendência excessiva das plaquetas sanguíneas para se agruparem formando coágulos) e como fibrinolítico (desfaz a fibrina, proteína que forma os coágulos de sangue). Tudo isto contribui para aumentar a fluidez do sangue, tornando o alho muito recomendável para aqueles que tenham sofrido de trombose, embolias ou acidentes vasculares, por falta de irrigação sanguínea.

-Hipolipemiante (1,2,3,4): Diminui o nível de colesterol LDL (colesterol nocivo) no sangue, possivelmente devido ao facto de dificultar a sua absorção no intestino. Foi possível verificar que, nas horas seguintes a um Pequeno- almoço à base de torradas com manteiga, o colesterol se eleva em 20%; mas, se se esfregar o pão com bastante alho, mesmo comendo a manteiga, não se produz um tal aumento. Esta observação científica foi publicada no Indian Journal of Nutrition (vol. 13, nº 1).

Hipoglicemiante (1,2,3,4): Dado que normaliza o nível de glicose no sangue, convém que seja utilizado pelos diabéticos (como complemento das outras medidas terapêuticas) e pelos obesos.

Antibiótico e anti-séptico geral (1,2,3,4): Desde meados do século XX tem-se vindo a investigar as propriedades anti-infecciosas do alho. Foi possível comprovar a sua acção antibiótica, tanto in vivo como in vitro, na presença dos seguintes microrganismos:

-‘Escherichia coli’, causador da disbacteriose intestinal e de infecções urinárias.

-‘Salmonella typhi’, causador da febre tifóide, e outros géneros de Samonella causadores de graves infecções intestinais.

-‘Shigella dysenteriae’, causador da disenteria bacilar.

– Estafilococos e estreptococos, causadores de furúnculos (borbulhas infectadas) e outras infecções da pele.

– Fungos de diversos tipos, leveduras e alguns vírus, como o do herpes. Crê-se que os princípios activos do alho interferem nos ácidos nucleicos do vírus, limitando assim a sua proliferação.

O poder bactericida do alho no tracto intestinal é selectivo perante as bactérias patogénicas, respeitando a flora saprófita normal, para a qual é benéfico. Nisto tem vantagem sobre a maior parte dos antibióticos conhecidos, pois regula a flora intestinal em vez de destruí-la.

O seu uso é muito indicado:

-em todos os tipos de diarreias, gastrenterites e colites.

– nas salmoneloses (infecções intestinais geralmente causadas por alimentos em mau estado).

-na disbacteriose intestinal (alteração no equilíbrio microbiano do intestino), provocada frequentemente pelo uso de outros antibióticos.

– nas dispepsias fermentativas, causadoras de flatulência no cólon.

-nas infecções urinárias (cistites e pielonefrites), com muita frequência causadas pelo Escherichia coli.

– em diversas infecções bronquiais (bronquites agudas e crónicas), pois ao eliminar-se o bissulfureto de alilo pelas vias respiratórias, actua directamente sobre a mucosa bronquial. É além disso expectorante e antiasmático.

-Estimulante das defesas (1,2,3,4): O alho aumenta a actividade das células defensivas do organismo, os linfócitos e os macrófagos. Estas células, que circulam no sangue, protegem-nos dos microrganismos e são, além disso, capazes de destruir também as células cancerosas, pelo menos nas fases iniciais da formação tumoral.

O consumo do alho tem um efeito benéfico em qualquer doença infecciosa, aumentando a capacidade defensiva do nosso organismo, além de destruir directamente certos microrganismos.

O alho está a ser usado com relativo êxito como complemento no tratamento da sida.

Vermífugo potente (1,3,5) contra os tipos mais frequentes de parasitas intestinais: Especialmente activo contra os ascarídeos e os oxiúros (pequenos vermes brancos que provocam prurido anal nas crianças).

Tonificante geral do organismo e depurativo (1,2,3,4): O alho activa as reacções químicas do metabolismo e favorece os processos de excreção de substâncias residuais (catabolismo). Por isso é indicado para os estados de debilidade ou esgotamento, para a inapetência e para quem sofra de excesso de resíduos ácidos (gotosos, artríticos, certos reumatismos).

Desintoxicante (1,2,3,4), especialmente recomendado nos tratamentos para deixar de fumar. Normaliza a tensão arterial geralmente elevada do fumador, favorece a eliminação da mucosidade retida nos brônquios e a regeneração da sua mucosa, ao mesmo tempo que ajuda a vencer o desejo de fumar, talvez pelo cheiro típico que dá ao hálito.

Preventivo dos tumores malignos (1,2,3,4), especialmente dos cancros digestivos. É possível que isto se deva à sua acção reguladora sobre a flora intestinal e normalizadora do funcionamento digestivo, embora possa também estar relacionado com os seus efeitos sobre o conjunto de reacções químicas do organismo (metabolismo).

Alguns têm pretendido curar tumores cancerosos com o alho, o que, no nosso entender, carece de suficiente rigor científico e desperta falsas esperanças nos doentes. Por isso, de momento, só podemos recomendá-lo como preventivo.

Calicida: Aplica-se um pedaço de alho esmagado sobre o calo, segurando-o com um pequeno penso auto-adesivo (ou uma ligadura). Em dois ou três dias o calo amolece e desinflama-se, podendo ser extirpado com maior facilidade.


Precauções

O uso do alho em doses elevadas, especialmente cru ou em extractos, é desaconselhado em casos de hemorragia, quer seja por causa traumática (feridas, acidentes, etc.) ou menstrual (regras abu n dantes). Devido à sua acção fluidificante do sangue (ver a secção correspondente), as doses elevadas de alho podem prolongar as hemorragias e dificultar os processos de coagulação. Não se recomenda o emprego continuado de grandes doses de alho durante a gravidez.


Preparação e emprego

Uso interno

O alho pode tomar-se de muitas maneiras, entrando numa infinidade de receitas culinárias. Destacamos aqui apenas aquelas que mais convêm do ponto de vista medicinal.

1-Cru: Mastigar de um a três dentes de alho, preferentemente de manhã.

2-Extracto de alho: Em cápsulas, têm a vantagem de não provocar mau odor corporal de qualquer tipo, embora seja necessário tomar doses elevadas para obter efeitos terapêuticos. A dose habitual costuma ser de 6 a 12 cápsulas (600 a 1200 mg) por dia.

3-Decocção de dentes de alho: Pôr uma cabeça de alho num litro de água, e ferver durante 5 minutos. Tomar três chávenas por dia. Desta forma perde-se uma parte das suas propriedades mas evita-se o mau hálito.

4-Alho com azeite (esp. ajoaceite, fr. aillolil: É talvez a melhor forma de administrar o alho. Obtém-se por emulsão de vários alhos triturados em azeite de oliveira, até conseguir uma massa pastosa e homogénea, semelhante à maionese.

 

Uso externo

5-Clisteres: Muito úteis contra os parasitas intestinais. Preparam-se misturando 2 ou 3 colheradas de alho com azeite num litro de água morna. Também se pode introduzir um dente de alho cru untado em azeite, no ânus, como se fosse um supositório. Desta forma se alivia o prurido anal das crianças, e se consegue um acentuado efeito vermífugo.


Outros nomes: alho-vulgar, alho-comum. Esp.: ajo, ajo común, ajo blanco, ajo colorado. Fr.: ail. lng.: garlic.

Habitat: Originário da Ásia Central, a sua cultura estendeu-se pelo mundo inteiro.

Descrição: Planta bolbosa vivaz, da família das Liliáceas, que atinge de 30 a 80 cm de altura. As suas flores são esbranquiçadas ou avermelhadas. A raiz tem um bolbo composto de vários bolbilhos, que são conhecidos como dentes.

Partes utilizadas: O bolbo.


Fonte: A Saúde pelas Plantas Medicinais, Vol.2, de Jorge D. Pamplona Roger

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