cardiopatias

Dr. Dean Ornish é um médico da Califórnia que há uns anos assombrou o mundo da medicina convertendo-se até hoje no primeiro investigador que verdadeiramente curou a cardiopatia. E o mais surpreendente do caso foi que o fez com uma combinação de métodos naturais de «baixa tecnologia» como os exercícios, o ioga, a meditação, o apoio de grupo e uma dieta vegetariana pobre em gorduras (com 10% das calorias provenientes da gordura).

Eu sempre gostei de uma história que o Dr. Ornish conta sobre um grupo de coelhos, porque esta juntou um aspecto realmente interessante às investigações da cardiopatia. Estes coelhos eram geneticamente iguais e foram mantidos em laboratório sob condições de investigação, recebendo a mesma alimentação e realizando a mesma quantidade de exercícios. Apesar disto, um grupo deles teve menos 60%o de ataques de coração que os outros. Qual foi a diferença?

Pois resultou que os coelhos mais saudáveis eram os que estavam colocados nas jaulas inferiores. A pessoa que dava a comida aos coelhos não era alta e conseguia alcançar mais directamente os coelhos das jaulas inferiores, acariciando-os enquanto os alimentava, coisa que não conseguia fazer com os coelhos das jaulas superiores. De acordo com isto, parece que o amor é um salva-vidas; pela minha parte, sempre pensei assim.

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O poder dos vegetais

Um dos meus métodos favoritos para prevenir – e recuperar de – um ataque cardíaco não o encontrará em nenhum texto médico. Este método é a sopa de vegetais. A maioria das pessoas chamam-lhe “minestrone”, mas eu chamo-lhe “medistron” devido a ser tanto um remédio como um alimento.

Não existe uma receita para esta sopa. Tome simplesmente os ingredientes apropriados, os quais lhe vou descrever, e combine-os para fazer uma grande panelada de sopa deliciosa. A chave é concentrar-se nos vegetais da estação e fazê-la todas as vezes um pouco diferente para que não se sature deste prato saudável. Em pouco tempo se converterá num hábito que desfrutará para o resto da vida.

Alguns dos vegetais e ervas que utilizo nesta sopa, particularmente o alho, a cebola, o gengibre e o pimentão-picante, fazem que seja menos provável que se formem coágulos no sangue, evitando assim um possível ataque cardíaco por eles provocado. O alho e a cebola também ajudam a reduzir o colesterol e a pressão arterial.

Outros vegetais, em particular o tomate, contêm um composto chamado ácido gama-aminobutírico (GABA, segundo a sigla em inglês). Ultimamente, fiquei fascinado com este composto. Segundo alguns estudos realizados, o GABA no tomate e em muitos vegetais que se utilizam nas sopas parece reduzir a pressão arterial e ajudar a fortalecer o músculo cardíaco. À base de tomate da “medistrone” acrescentamos outras ervas, especiarias e vegetais que ajudam a reduzir a pressão arterial, entre eles a cebola e o alho já mencionados, mais o arroz, o aipo e o açafrão.

Outros vegetais adicionais que o leitor podia acrescentar à “medistrone” e que ajudam a baixar o colesterol são a alcachofra, a cevada, os feijões, a cenoura, a beringela e o espinafre. Além do mais, a minha “medistrone” leva vegetais com elevado teor de glutatião que é um poderoso antioxidante. Os antioxidantes ajudam a evitar que a placa (ateroma) que obstrui as artérias se deposite nas paredes das artérias coronárias. O leitor pode encontrar quantidades saudáveis nos espargos, nos brócolos, no repolho, na couve-flor, nas batatas, na beldroega e no tomate. (Também se pode encontrar esta substância no abacate, na uva, na laranja, no pêssego e na melancia, mas eu não utilizaria estes ingredientes na minha sopa.)

Todos os vegetais que o leitor pode utilizar na “medistrone” têm baixo teor de gordura e têm pouco ou nenhum colesterol, pelo que podem ajudá-lo a controlar o peso, a pressão arterial e o colesterol. Os vegetais até podem proporcionar-lhe a oportunidade de se exercitar um pouco se for o leitor a cultivá-los.

Portanto, se está preocupado com um possível ataque cardíaco, não deixe de comer a “medistrone” uma ou duas vezes por semana – ou mais, se assim o desejar. Pode fazer uma grande panela de sopa no princípio da semana, congelá-la em porções e tê-la à sua disposição para quando a desejar.

Mais razões para comer vegetais

Mas não se fique apenas pela “medistrone”. Existem tantas provas da cardiopatia que o leitor deveria incluí-los como parte de todas as refeições.

As frutas e os vegetais são a nossa principal fonte dos seguintes potentes antioxidantes: as vitaminas C e E, os carotenóides, que são semelhantes à vitamina A, e o folato, uma vitamina B. Muitos estudos mostram que à medida que o consumo dietético destes nutrientes aumenta, o risco de ataque cardíaco diminui em 40%. (E o risco de cancro também baixa em 50%.)

Não é em vão que o Conselho Nacional de Investigações, o Instituto Nacional do Cancro e a maioria das autoridades de saúde nutricional instigam os norte-americanos a que comam pelo menos cinco porções de fruta e vegetais por dia, um programa cujo nome (e palavra de ordem) é “strive for five” (trate de chegar às cinco).

Tenha presente, contudo, que cinco é somente o mínimo saudável. Muitos nutricionistas recomendam oito ou nove porções diárias. Ora bem, isto é difícil, tendo especialmente em conta que só 10% dos norte-americanos comem as cinco porções recomendadas, segundo afirma a Dr.ª Gladys Block, epidemologista nutricional da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Todavia, parece que seria melhor alterar a palavra de ordem para “tend towards ten”, ou “trate de chegar às dez”. Em 1997 , comecei a minha própria campanha chamada o Strive for Five Times Five» (Tente Chegar às Cinco Vezes Cinco), para referir-me aos cinco tipos de alimentos mais recomendáveis (fruta, plantas medicinais, legumes e grãos, mais frutos secos e vegetais).

Não tenho dúvidas de que se os nove mil milhões de dólares que se gastam nas derivações cardíacas se empregassem no financiamento de uma grande campanha de publicidade dirigida aos norte-americanos no sentido de comerem mais frutas e vegetais, haveria muito menos ataques cardíacos.

 

Tratamento com a farmácia verde

Já mencionei que o alho, a cebola, o gengibre e o pimento picante ajudam a prevenir as cardiopatias, reduzindo a tensão arterial, e que o alho e a cebola também reduzem o colesterol e trabalham para que não se formem coágulos no sangue. Se o leitor sabe muito acerca de ervas, provavelmente esta informação não será novidade. Mas possivelmente não sabe de muitas ervas que podem ajudar a prevenir e a tratar as cardiopatias.

* Bredo/Amaranto (Amaranthus, várias espécies) e outras plantas que contêm cálcio. As folhas do bredo são uma das nossas melhores fontes para obter cálcio à base de plantas (cerca de 5,3% do peso seco). Os estudos indicam que o cálcio acrescenta densidade mineral aos ossos, o que pode prevenir a osteoporose. Mas há mais: o mineral também diminui significativamente o risco de ataque cardíaco. Outras plantas com elevado teor de cálcio são o quenopódio, a urtiga, a fava, o agrião, o alcaçuz, a manjerona, a segurelha, os talos de trevo vermelho e o tomilho.

Para além do cálcio, o bredo tem muita fibra. Um estudo realizado em Harvard durante seis anos a mais de quarenta mil homens demonstrou que, comparados com os que consumiram a menor quantidade de fibra, os que ingeriram a maior quantidade tinham somente uma terça parte do risco de sofrer um ataque cardíaco. O leitor pode acrescentar o bredo às saladas, aos pratos de vegetais mistos e à “medistrone”.

* Salgueiro (Salix, várias espécies). A casca de salgueiro contém salicina que é o percursor da aspirina nas ervas. Um grande número de investigações demonstram que as doses baixas de aspirina – de meio a um comprimido normal por dia – pode reduzir bastante o risco de ataque cardíaco ao evitar que se formem os coágulos no sangue que provocam os ataques de coração.

O organismo converte a aspirina em ácido salicílico e também converte a salicina da casca de salgueiro em ácido salicílico. Portanto, se uma aspirina farmacêutica ajuda a prevenir os ataques cardíacos, a aspirina à base de ervas também o deve fazer. Se o leitor é alérgico à aspirina, provavelmente também não deverá tomar aspirina à base de ervas.

Normalmente, as pessoas utilizam a casca do salgueiro-branco (Salix alba), mas algumas outras espécies são mais ricas em salicina, incluindo o salgueiro-frágil (Salix fragilis) e o salgueiro-púrpura (Salix purpurea).

Mas se sucede ser o salgueiro-branco o único tipo que o leitor consegue encontrar na sua loja de produtos naturais, não há problema.

Considera-se que entre meia e uma colherzinha de casca de salgueiro-branco contém aproximadamente cem mil partes por milhão de salicina, ou 100 mg. Depois de se converter em ácido salicílico é que esta erva pode proporcionar o suficiente efeito protector do coração que a aspirina tem.

Recomendaria a preparação de um chá com aproximadamente uma colherzinha de casca para uma chávena de água. Deixe em infusão durante quinze minutos e coe. Pode experimentar uma chávena de dois em dois dias.

* Angélica (Angelica archangelica). Os médicos receitam rotineiramente os bloqueantes de canais de cálcio tais como o verapamil (…) para evitar os ataques cardíacos. Esta é uma classe de fármacos que funciona ao ajudar a reduzir a pressão arterial.

A angélica contém quinze compostos diferentes que são bloqueantes dos canais de cálcio. Se está a tomar um bloqueante destes receitado, não lhe aconselho a abandonar o seu tratamento em favor da angélica, mas suspeito que acrescentar esta erva ao seu regime melhoraria o efeito total do seu medicamento. Deve consultar um médico sobre a possível utilização desta erva se desejar experimentá-la.

Eu preparo uma bebida chamada ”Angelada” que consiste em colocar num espremedor de sumos o sumo de angélica, de cenoura, de aipo, de funcho, de alho, de beldroega e de pastinaca (cherívia), com um pouco de água e especiarias para a tornar mais agradável ao paladar. É muito saborosa, e todos os ingredientes contêm bloqueantes dos canais de cálcio ou, então, contêm antioxidantes ou compostos que baixam o colesterol ou a pressão arterial, e, portanto, ajudam a prevenir a cardiopatia de uma maneira ou de outra.

* Videira(Vitis vinifera). Uns trinta estudos a longo prazo concluem que os que bebem bebidas alcoólicas com moderação – isto é, um ou dois tragos por dia – reduzem os riscos de ataque cardíaco entre 25% e 40%.

Há um debate apaixonado sobre o porquê destas conclusões. Alguns investigadores asseguram que o próprio álcool tem um efeito protector sobre o coração, presumivelmente porque diminui o colesterol LDL (o “mau” colesterol). Dizem eles que qualquer tipo de álcool ajuda, seja a cerveja, o vinho ou os licores destilados.

Outros insistem que existe algo adicional no vinho tinto, e eu inclino-me a pensar o mesmo. Certas substâncias químicas chamadas compostos fenólicos que se encontram na pele da uva dão ao vinho a sua cor tinta.

Também protegem o organismo do colesterol LDL ainda com mais força que a poderosa vitamina E.

Todavia, o leitor não necessita de beber vinho tinto para obter estes compostos. Eles também se encontram na uva tinta e em muitas outras frutas e vegetais, incluindo os mirtilos, as amoras das silvas e das amoreiras, os arandos azuis, o alho e a cebola.

Se o leitor decidir obter os benefícios destes compostos tomando um par de copos de vinho por dia, tudo bem. Lembre-se somente que tomar mais de dois tragos por dia pode dar-lhe cabo do coração.

* Espinheiro (Crataegus, várias espécies). O espinheiro tem uma reputação bem estabelecida e merecida como tónico suave para o coração. É especialmente útil no tratamento da fadiga cardíaca conhecida como falha cardíaca congestiva. Mas as investigações demonstram que esta planta também ajuda a prevenir os ataques cardíacos. O espinheiro melhora a circulação do sangue para o coração abrindo (isto é, dilatando) as artérias coronárias. Também aumenta a capacidade do coração para enfrentar as perdas de oxigénio, que é o que sucede quando as artérias coronárias obstruídas reduzem o fornecimento de sangue ao coração.

O espinheiro também ajuda o coração a manter um ritmo de batida normal e diminui o que se conhece como resistência vascular periférica. Significa isto que ajuda a que o sangue flua mais facilmente, aliviando a tensão sobre o coração e ajudando a reduzir a pressão arterial.

Num estudo realizado, as pessoas com cardiopatia que tomaram de 600 mg-900 mg de espinheiro por dia durante dois meses informaram que tinham sentido melhoras significativas.

O espinheiro é uma medicina potente para o coração. Se o leitor quer experimentá-lo para prevenir os ataques cardíacos, deve consultar o seu médico e ver um naturopata para obter um extracto normalizado. Os naturopatas não recomendam que se tome a erva crua para o tratamento da cardiopatia.

* Beldroega ( Portulaca oIeracea). Sempre que tenho oportunidade, e esta é uma delas, celebro a saborosa beldroega, que é muito parecida com o espinafre. Este vegetal de jardim, fácil de cultivar, é a nossa maior fonte “verde” dos compostos benéficos conhecidos como ácidos gordos ómega-3.

Os ómega-3 ajudam a prevenir os coágulos sanguíneos que provocam os ataques cardíacos. São a razão pela qual as pessoas que comem muito peixe de água doce como o salmão, que é a fonte mais importante destes óleos, têm baixos níveis de cardiopatias.

Além do mais, a beldroega está cheia de antioxidantes, os quais também ajudam a prevenir tanto os ataques cardíacos como o cancro.

Finalmente, esta erva contém cálcio e magnésio numa proporção de um para um. Já referi que o cálcio é bom para o coração, mas o cálcio protege mais quando se toma numa combinação de um para um com o magnésio.

Esta é uma boa razão para comer muitas folhas frescas de beldroega. Eu como-as cruas nas saladas ou cozinho-as a vapor, tal como o espinafre.

* Alecrim (Rosmarinus officinalis). O alecrim é uma das fontes mais ricas em antioxidantes, e por isso funciona muito bem como conservante dos alimentos. Os seus antioxidantes ajudam a evitar que as gorduras da carne fiquem rançosas. Em certo sentido, fazem o mesmo ao seu coração.

O alecrim serve para fazer chás saborosos. Também pode utilizar abundantes quantidades desta planta nos cozinhados.

* Chicória-do-café (Chichorium intybus). Segundo a ervanária californiana Kathi Keville, autora da The lllustrated Herb Encyclopedia e Herbs for Health and Healing, os investigadores egípcios descobriram que a raiz da chicória-do-café tem duas vantagens para o coração: diminui o ritmo cardíaco acelerado e também tem um efeito estimulante no coração que não é muito forte e que é parecido com o efeito produzido por um medicamento receitado frequentemente pelos médicos. A chicória-do-café também é suficientemente suave para ser segura.

* Oliveira (Oliva europea). Quando se toma diariamente, o azeite pode ter um efeito significativamente protector contra a cardiopatia. E é certamente a chave da dieta mediterrânea, a qual é saudável para o coração.

Nas populações do Mediterrâneo, onde a principal fonte de gordura é o azeite mono-insaturado, os ataques de coração são relativamente baixos mesmo quando o consumo total de gorduras é bastante elevado.

Se ainda não o fez, o leitor deveria considerar fazer do azeite o principal óleo a utilizar na cozinha.

*Amendoim/Alcagoita (Arachis hypogaea). Deixe as películas vermelhas aos amendoins, já que é ali que se encontram os compostos que protegem o coração, isto é, a procianidina oligomérica (OPC, segundo a sigla em inglês). A OPC é um antioxidante poderoso que ajuda a prevenir não só os ataques cardíacos mas também o cancro e o derrame cerebral.

Devido ao facto de os conteúdos de OPC nas plantas não terem sido devidamente calculados, não posso dizer-lhe quais as que possuem a maior quantidade. Eu gosto de obter a OPC da casca do amendoim (alcagoita), da uva tinta e do vinho tinto.

Fonte: Farmácia Verde, de James A. Duke (adaptado)

Composto e postado por Ângela Barnabé

 

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