Pilriteiro (Crataegus monogyna Jacq.) – Fortalece o coração e acalma os nervos

Como te arranjas para ter umas cabras tão fortes e ágeis? –pergunta um camponês grego do primeiro século da nossa era, a um seu vizinho.

O verão já está a acabar, e os campos secos e pedregosos do Mediterrâneo parecem não oferecer muito alimento a estes rudes mamíferos.

-Pois olha, vou dizer-te o segredo. Já viste aqueles arbustos cheios de espinhos, com uns frutos pequenos e vermelhos? Procura um desses arbustos e dá as bagas a comer às tuas cabras. Em poucos dias notarás os resultados.

Efectivamente, as cabras do vizinho adquiriram uma vitalidade como nunca antes haviam tido. Pareciam infatigáveis, trepando pelos penhascos sob o escaldante sol do verão grego. Bem pode ter acontecido que aqueles cabreiros fossem contar a sua experiência a Dioscórides, perspicaz observador, brilhante botânico e famoso médico, que recomendou esta planta para fortalecer o organismo e para curar diversas doenças. Também pode vir desse tempo o seu nome de Crataegus que em grego quer dizer ‘cabras fortes’.

O pilriteiro foi sempre muito apreciado como remédio. Mas o conhecimento empírico que se tinha dele, baseado nos seus efeitos sobre as cabras, não pôde ser comprovado cientificamente antes do século XIX. Foi só nesta época que Jennings e outros médicos norte-americanos estudaram as propriedades cardiotónicas deste arbusto.

Nos nossos dias, o pilriteiro goza de um grande prestígio como planta medicinal e faz parte de numerosos preparados fitoterapêuticos.


Propriedades e Indicações:

As flores sobretudo, e também os frutos do pilriteiro, contêm diversos glicósidos flavónicos, que quimicamente são polifenóis, aos quais se atribui o seu efeito sobre o coração e o aparelho circulatório. Encontram-se ainda derivados triterpénicos e diversas aminas biogenéticas (trimetilamina, colina, tiramina, etc.), que potenciam o efeito cardiotónico. Toda a planta, graças às propriedades do conjunto destas substâncias, é:

-Cardiotónica (1,2,3): Propriedade atribuída sobretudo aos flavonóides, que inibem (impedem) a acção da adenosin-trifosfatase (ATPase). Esta enzima é a que decompõe o ATP, substância que serve de fonte de energia para as células, incluindo as do músculo cardíaco. Impedindo-se a destruição do ATP as células dispõem de maior energia, e produz-se um aumento da força contráctil do coração, e uma regularização do seu ritmo. Por esta razão, o pilriteiro tem as seguintes indicações:

* Insuficiência cardíaca ( debilidade do coração), acompanhada ou não de dilatação das suas cavidades, devida a miocardites ou miocardiopatias (inflamação ou degenerescência do músculo cardíaco), lesões valvulares ou infarto de miocárdio recente.

*Arritmias (transtornos do ritmo do coração): extra-sístoles (palpitações), taquicardia, fibrilação auricular ou bloqueios.

*Angina de peito: o pilriteiro aumenta a circulação do sangue nas artérias coronárias, e combate o seu espasmo, causador da angina de peito. É um bom vasodilatador das artérias coronárias.

O efeito cardiotónico e antiarrítmico desta planta é semelhante ao que se obtém com a dedaleira, planta que o pilriteiro pode substituir com vantagens (não em casos agudos). O pilriteiro não tem a toxicidade nem os perigos de acumulação próprios da dedaleira.

-Normalizadora da tensão (1,2,3): O pilriteiro tem um efeito regulador sobre a tensão arterial, pois fá-la descer em quem a tenha alta e provoca a sua subida nas pessoas que sofram de hipotensão. A sua acção normalizadora sobre a hipertensão é rápida e evidente, conseguindo-se efeitos mais duradouros do que aqueles que  conseguem com outros anti-hipertensores sintéticos.

– Sedativa do sistema nervoso simpático (efeito simpaticolítico) (1,2,3): Torna-se útil nas pessoas que sofrem de nervosismo, manifestado por uma sensação de opressão no coração, taquicardia, dificuldade em respirar, angústia ou insónia. É uma das plantas ansiolíticas (que eliminam a ansiedade) mais eficazes que se conhecem.


Precauções

Em doses muito elevadas (12 ou 15 vezes maiores que as recomendadas), pode apresentar-se bradicardia (diminuição da frequência do pulso) e depressão respiratória. Com as doses recomendadas não se produz nenhum efeito secundário indesejável.


Preparação e emprego

Uso interno

1-lnfusão com 60 g de flores (umas 4 colheres de sopa) por litro de água. As flores frescas são mais eficazes do que as secas. Administram-se 3 ou 4 chávenas diárias.

2-Frutos frescos: Embora apresentem uma menor concentração de princípios activos, também são eficazes, e pode tomar-se um punhado deles 3 vezes ao dia.

3-Extracto seco: Recomenda-se de 0,5 a 1 g, 3 vezes ao dia.


Outros nomes: escalheiro, pirliteiro, espinheiro-alvar,espinheiro-branco. Esp.: espino blanco, oxiacanto, níspero espinoso. Fr.: aubépine [à un style], epiniére. Ing.: [common] hawthorn, May bush.

Habitat: Comum nos bosques de toda a Europa. Naturalizado na América.

Descrição: Arbusto espinhoso da família das Rosáceas, que atinge de 2 a 4 m de altura. As folhas são caducas, divididas em 3 ou 5 lóbulos. As flores são brancas, aromáticas. Os frutos são bagas de cor vermelha.

Partes utilizadas: as flores e os frutos.


Fonte: A Saúde pelas Plantas Medicinais, Vol.1, de Jorge D. Pamplona Roger